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Pró Criança: trabalho de inclusão

Por Flavia Hadad

Responsável pelo projeto Pró Criança do Hospital Pró Cardíaco, em Botafogo (Rio de Janeiro), a cardiologista Rosa Célia Barbosa lidera uma equipe de profissionais, cujo trabalho visa a atender a criança carente com problemas cardíacos e sem recursos para ser tratada. Desde a sua fundação, em 1996, até setembro deste ano, 6.309 crianças passaram pelo Pró Criança. Até o mês de setembro de 2004, foram realizadas 32 cirurgias.

Além dos profissionais que cuidam dessas crianças gratuitamente, o projeto conta com a cooperação de várias clínicas e laboratórios e também com a colaboração de doadores. Atualmente, ele tem o apoio de 17 empresas, 260 pessoas físicas, benfeitores e voluntários. O Pró Criança também fornece medicamentos, cesta básica, vestuário e ajuda no transporte dos pequenos pacientes.

O hospital Pró Cardíaco, reconhecido como o melhor hospital cardiológico do Rio de Janeiro, disponibiliza toda a estrutura hospitalar necessária para os tratamentos e as cirurgias. Em 2001, o Pró Criança passou a ter sede própria com a ajuda do BNDES, mas as cirurgias continuam sendo realizadas no Pró Cardíaco.

Em entrevista exclusiva para o portal, a Dra. Rosa Célia conta quais são as dificuldades que ela encontra para manter o projeto que mudou a vida dela e a vida de muitas crianças.

saude.com.br: Como surgiu a idéia de criar o Pró Criança Cardíaca?
Dra. Rosa Célia:
Quando tive a idéia de ajudar crianças cardíacas carentes, comecei a atendê-las, encaixando-as entre horários, no meu consultório e, depois, no Pró-Cardíaco (hospital em Botafogo). São muitas crianças carentes e não há vagas para elas nos hospitais públicos do Rio de Janeiro. Hoje, com um grupo organizacional, passamos a dar um tratamento mais digno pois, inicialmente, a assistência era precária.

saude.com.br: Como a criança chega à entidade?
Dra. Rosa Célia:
As crianças chegavam em meu consultório particular através de indicação ou me procuravam diretamente. A partir de 2001, o Pró Criança se institucionalizou com a ajuda do BNDES, que comprou uma casa para que elas crianças fossem atendidas na própria sede. Fazemos os exames e o diagnóstico primário na sede e as cirurgias continuam sendo feitas no Pró Cardíaco. Além deste atendimento, fornecermos cestas básicas e medicamentos.

saude.com.br: Qual é o grande desafio do Pró Criança?
Dra. Rosa Célia:
O nosso grande desafio é, sempre, conseguir apoio financeiro. Além de trabalhar cuidando das crianças, passo o dia mendigando e pensando em eventos para arrecadar dinheiro.

saude.com.br: Com exceção do BNDES, por que vocês não recebem o apoio do governo?
Dra. Rosa Célia:
Não temos mais ajuda do BNDES. Ele não nos dava dinheiro, mas comprou o equipamento e a casa, onde estamos instalados hoje e que é a sede da Instituição. O Pró Criança nunca procurou o governo, pois eu quero que ele seja uma contribuição da sociedade. Nós pagamos impostos e não usamos esse dinheiro que vai para o governo; ele não está dando conta do que tem que fazer e eu gostaria que ele cuidasse bem dos hospitais públicos. Há 30 anos, quando voltei da Inglaterra, minha idéia era trabalhar em instituições públicas. A criança tem que chegar no hospital e ser atendida e isso não está acontecendo.

saude.com.br: A senhora acha que o Estado está deixando de cumprir com suas obrigações por causa do crescimento do trabalho voluntário e das ONGs?
Dra. Rosa Célia:
Não. O trabalho voluntário é perigoso, porque é muito trabalhoso manter uma instituição. Falta, infelizmente, honestidade nesse meio. Não se sabe se as ONGs estão bem organizadas e quem gosta de se promover, acaba perdendo a credibilidade. Não paro de trabalhar enquanto existir falhas no atendimento às crianças. Não há vagas nem aparelhos nos hospitais.

saude.com.br: Como a senhora vê a atual situação da saúde pública no Brasil?
Dra. Rosa Célia:
A saúde pública no Rio de Janeiro, onde eu tenho mais vivência, ainda continua muito precária. Os postos de saúde têm que ser organizados para fazer triagem, pois não se pode negar um atendimento por falta de estrutura. Eles têm que orientar o paciente e encaminhá-lo para outros postos. O governo deve investir mais em campanhas para orientar a população. Por exemplo: uma campanha que ensine à família a tratar uma diarréia com remédios caseiros, uma campanha que mostre os malefícios da comida em fast food e por aí vai. O índice de crianças obesas está aumentando e a obesidade pode desencadear alguns problemas cardíacos. O número de pessoas doentes aumenta e eu não vejo o governo dar nenhuma satisfação para o povo.

saude.com.br: A senhora sempre quis ser médica?
Dra. Rosa Célia:
Desde os 15 anos de idade.

saude.com.br: Como foi a sua infância?
Dra. Rosa Célia:
Está na boca do povo (risos). Eu vim de uma família pobre, com muitos filhos. Fazia tudo para agradar à minha mãe. Nunca tive coragem de respondê-la ou fazer qualquer tipo de indelicadeza. Naquela época, diferente do que se vê hoje em dia, todo mundo respeitava até o irmão mais velho. Hoje não existe mais o conceito de família e os valores são outros.

saude.com.br: Quando teve vontade de trabalhar com crianças?
Dra. Rosa Célia:
Sempre gostei de crianças. No colégio interno, dava aula e tomava conta do maternal. Pensei até em me especializar em pediatria, mas acabei indo para a cardiologia.

saude.com.br: O que mudou na sua vida depois do Pró Criança Cardíaca?
Dra. Rosa Célia:
Apesar de toda a correria do dia-a-dia e de trabalhar muito, aprendi a ficar mais humilde e a lidar com as pessoas. Estou mais tranqüila e em paz comigo mesma. Hoje, sou mais harmonizada, mesmo quando não estou feliz ao ver que ainda tem muita gente precisando de ajuda.


Para obter mais detalhes sobre o trabalho realizado pela Dra. Rosa Célia no Pró Criança Cardíaca, acesse http://www.procrianca.com.br/home.htm .
Rua Dona Mariana, nº 40, Botafogo – Rio de Janeiro. Telefone: (21) 2527-7169