Entrevista com Antônio Carlos Costa, presidente da ONG Rio de Paz

Ele é apenas mais um carioca pai de dois filhos adolescentes que ama sua cidade e que não se conforma com tanta violência. Em janeiro de 2007, depois que criminosos atearam fogo num ônibus e queimaram oito pessoas vivas, Antônio Carlos Costa cansou-se de reclamar: reuniu um grupo de cidadãos e criou a ONG Rio de Paz.

Para chamar a atenção da sociedade e cobrar dos responsáveis, o Rio de Paz desenvolve ações criativas, pacíficas e inclusivas, marcadas pela defesa da vida e dos direitos humanos. Nessa conversa ao Saúde, Antônio contou detalhes da iniciativa, sobre como podemos mudar nossa tragédia diária e um pouco de qualidade de vida, afinal ele foi o precursor do bodyboard no Brasil.

Saúde: O país registrou mais de 500.000 homicídios nos últimos 10 anos. O senhor acredita que a violência é o problema mais grave do Brasil?

Sem a mínima dúvida. Veja a extensão do problema. Milhares de vidas interrompidas pelo crime, e isso há anos. Que motivo maior podemos encontrar para nos organizarmos em sociedade do que a preservação do direito à vida? Esse é a gênese da organização política da sociedade. Se esse direito não está assegurado, que sentido há em preservarmos os demais. Construir escolas para fantasmas? Distribuir renda para mortos? Levar água encanada para cemitério?

Saúde: O Rio de Paz ficou conhecido por suas manifestações. Como surgem as ideias e qual é a equipe envolvida nos trabalhos?

Em geral uma imagem me ocorre, que julgo pode expressar com perfeição o problema social que estamos enfrentando, ou traduzir de forma artística a nossa indignação. Trato em seguida, de apresentá-la a alguns voluntários do Rio de Paz, que a aperfeiçoam. Temos voluntários que trabalham nas madrugadas, em geral, preparando a manifestação; gente que compra o material a ser usado; há o trabalho de assessoria de imprensa da Approach; uma pessoa é responsável pela criação de cartazes para o ato público; tem gente que faz o contato com as autoridades públicas, solicitando proteção policial e liberação do espaço público; muitos voluntários permanecem durante o evento mantendo contato com as pessoas que passam e buscam informação; e após o protesto, fazemos a clipagem das matérias sobre a manifestação e limpeza do local.

Saúde: Qual é o principal objetivo do Rio de Paz?

Diminuir o número de mortes violentas no Brasil, através de pressão sobre o poder público e trabalho de prevenção do crime.

Saúde: Já está programada a próxima manifestação?

Até o final de março devemos realizar um ato público contra a entrada de armas e munição no Rio de Janeiro. Isso será decidido numa reunião do executivo do movimento, que ocorrerá em breve. As polícias Civil e Militar têm carregado sobre os ombros uma responsabilidade que não é só delas. Impedir que essas pragas entrem no Rio de Janeiro é tarefa da Policia Federal e Policia Rodoviária Federal. O governo federal tem permanecido omisso quanto a esta questão.

Saúde: A violência diária parece não se assustar mais o carioca. A omissão contribui para a criminalidade?

Uma sociedade mais humana e capaz de reagir com indignação, representaria o fim de uma tragédia social, que têm levado milhares de pais e mães a dor incurável de ter perdido um filho assassinado.

Saúde: Como o cidadão pode ajudar efetivamente na melhoria da qualidade de vida da cidade?

Adquirindo uma consciência cidadã, que o faça conhecer a organização do estado democrático de direito suas principais instituições e leis, a fim de não restringir sua participação cívica ao ato de votar e pagar imposto. Nenhuma democracia suporta participação política da sociedade em que o poder delegado à autoridade pública, não seja supervisionado pela própria sociedade.

Saúde: O senhor pratica algum esporte? Fale um pouco mais sobre sua história no bodyboard.

Eu sou o precursor do bodyboard no Brasil. Havia um pequeno grupo no Rio e outro em Niterói que não se conheciam e que trouxeram o esporte para as praias do Rio. Lembro-me de, naquela época, disputar onda com os demais surfistas, e pessoas quererem saber que material era aquele que estávamos usando e nos permitia vir lá de trás, descendo as ondas e mandando manobras. Foi a atividade esportiva que consegui desbancar o futebol na minha vida. Meus dois filhos acabaram se tornando praticantes do esporte, e hoje tenho o privilégio de pegar onda com eles.

Saúde: Possui algum hobby? O que o senhor faz para esquecer um pouco o trabalho?

Minhas grandes paixões são a música, que ouço o dia inteiro; a leitura de obras clássicas, especialmente as ligadas à teologia e ciências sociais (na verdade, gosto de ler tudo); comer na companhia de grandes amigos; estar em casa com os filhos e esposa; os momentos de meditação e oração, que sustentam minha vida emocional; e pegar minhas ondinhas quando posso.